quarta-feira, 26 de abril de 2017

Pastor raro - Filipenses 2:20

“Não tenho ninguém que, como ele, tenha interesse sincero pelo bem-estar de vocês,” (Filipenses‬ ‭2:20)

Um dos grandes desafios que enfrentamos no exercício da liderança dominacional é o da indicação de alguém para assumir pastorado de  igreja. Lembro-me de que, há muitos anos, fui procurado por um lider, pedindo-me informação a respeito de um colega de ministério. Fiquei em situação bastante difícil, pois o que sabia a respeito da conduta pessoal dele era tão grave que não me permitia avalizar a indicação.

Sou dos que creem que a imensa maioria dos pastores, no círculo denominacional do qual participo, procura levar a sério o desenvolvimento do caráter, da conduta e de competências técnicas básicas para o bom exercício da missão e leva seu trabalho com sincero interesse pelas pessoas. Parece-me, entretanto, ser crescente o número daqueles cujo interesse é exclusivamente no sustento próprio e na cultura do prestígio, da fama e do poder.

Parece-me, também, cada dia mais raro, encontrar pastor sinceramente interessado no bem estar das pessoas. Isso não ocorre apenas no meio pastoral. Estamos inseridos em uma cultura individualista, na qual o interesse pelo bem estar público está em segundo plano. Trata-se de profundo equívoco coletivo que precisa ser revisto, sob pena de amargarmos, cada dia mais, experiências dolorosas tanto como igreja, quanto como sociedades em geral.

terça-feira, 25 de abril de 2017

A igreja como fonte de notícias animadoras - Filipenses 2:19

“Espero no Senhor Jesus enviar Timóteo brevemente, para que eu também me sinta animado quando receber notícias de vocês.” (Filipenses‬ ‭2:19‬)

Há notícias que nos abatem e há notícias que nos animam. Isso depende tanto dos fatos narrados quanto de quem narra os fatos. A maturidade e competência de quem noticia, seu nível de isenção e sua intensão política também influenciam nos efeitos que elas exercem sobre quem as recebe. 

Na igreja de Filipos havia líderes cujas motivações na realização do trabalho eram inveja e disputa. As notícias dessa igreja eram um retrato deles. Timóteo, cujo caráter pessoal e ministerial Paulo conhecia, gerava a expectativa de que, sob sua liderança, as relações internas da igreja seriam harmonizadas e se tornariam geradoras de boas notícias. 

O contexto, então,  no qual as palavras de Paulo estão inseridas, indica que sua expectativa por notícias animadoras não estava na forma como elas seriam narradas, mas no que e no como Timóteo, por seu caráter, trabalharia com os irmãos filipenses. Paulo acreditava que isso criaria uma nova realidade, um novo clima e, assim, em vez de notícias tristes, a vida da igreja seria, em si mesma, fonte de notícias animadoras.

sábado, 22 de abril de 2017

O imperativo da alegria - Filipenses 2:18

“Estejam vocês também alegres, e regozijem-se comigo.” (Filipenses‬ ‭2:18)

Alegria não se experimenta pela simples manifestação do desejo ou imposição de terceiros. Também não é fruto da coincidência de fatores variados favoráveis na vida de alguém. Há que defenda que isso seria felicidade. 

Alegria é uma experiência, uma vivência interior de quem se sente agraciado, que consegue perceber que até quando não tem, tem mais do que necessitava. Por isso não se amarga quando precisa correr atrás do prejuizo.

A vida fica mais leve quando convivemos ou nos deparamos com pessoas cujas circunstâncias lhes são dolorosamente adversas, mas, em vez de se lamentarem ou murmurarem, são capazes de dizer: “Estejam vocês também alegres, e regozijem-se comigo." Isso é exceção e ainda não sou uma. Mas prossigo para o alvo...


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Alegria na adversidade - Filipenses 2:17

“Contudo, mesmo que eu esteja sendo derramado como oferta de bebida sobre o serviço que provém da fé que vocês têm, o sacrifício que oferecem a Deus, estou alegre e me regozijo com todos vocês.” (Filipenses‬ ‭2:17‬)

Triste do seguidor de Jesus cuja alegria ministerial se prende tão somente a respostas positivas à sua mensagem, a circunstâncias favoráveis à sua caminhada de vida. Quem depende disso, rapidamente substitui o ser missionário pelo ser mercenário, pois será fiel à vontade dos clientes em vez de manter-se fiel à vontade de Deus.

Há circunstâncias nas quais, por mais fiéis que sejamos à vida e ensinos de Jesus, como modelo para nossas vidas e mensagens, joios brotam ao lado do trigo e experiências amargas se agigantam frentes aos prazeres que almejamos experimentar e proporcionar na missão.

"Contudo..." há que se predispor a estar alegre, mesmo quando a situação adversa quer se impor. Há que se ter clareza de que, ou escolhemos a alegria ou a amargura toma conta dos nossos corações. Escolher a alegria não é tão simples como girar uma chave, abrindo ou fechando uma porta, mas deve ser uma escolha indubitável, uma luz amarela que não para de piscar, para reger nossos pensamentos e sentimentos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Palavra da vida - Filipenses 2:16

“retendo firmemente a palavra da vida. Assim, no dia de Cristo, eu me orgulharei de não ter corrido nem me esforçado inutilmente.” ‭‭(Filipenses‬ ‭2:16‬)

Nada há que justifique mais plenamente o ministério desenvolvido por um seguidor de Jesus do que a qualidade de vida que resulta desse ministério. A mais importante gratificação de um discípulo é poder sentir-se na presença de Deus com a consciência tranquila de que seu trabalho não foi ou não está sendo inútil nesse sentido.

Hoje, porém, além de destacarmos que a fonte geradora de vida é a palavra, também é essencial que não confundamos "palavra da vida" com "palavra da Bíblia". O Diabo usou texto bíblico na tentação de Jesus, mas sua palavra era "palavra da morte" e não "palavra da vida". A "palavra da Bíblia" para ser "palavra da vida" precisa ser entendida e aplicada à luz da vida e ensinos de Jesus. Jesus disse: "eu sou a vida". Ele é a palavra de Deus encarnada que produz vida.

Também se faz necessário entender que reter "firmemente a palavra da vida" não se trata, sem demérito, de memorização de textos da Bíblia, mas de encarnação da vida de Jesus na própria vida. É essa encarnação que evita que legalismos farisaicos ou interesses incompatíveis com o espírito do evangelho salvador, libertador, de Jesus, prevaleça em nossa pregação.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Estrelas em meio a trevas - Filipenses 2:15

“para que venham a tornar-se puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo,”
‭‭(Filipenses‬ ‭2:15‬)

Se há uma imagem de si mesma com a qual, como igreja, deveriamos nos identificar, essa é a de um laboratório. Laboratório como espaço de desenvolvimento de experiências que, sendo reproduzidas em outras áreas da sociedade, resultaria na qualidade de vida abundante descrita por Jesus (Jo. 10:10) como finalidade de sua presença entre nós.

Não me refiro à mera reprodução de moral sem reflexão, imposta historicamente por meio de manipulação, mas à busca consciente de ações movidas pela graça visando reproduzir o caráter amoroso, justo, solidário, honesto, integro, firme, enfim, de Jesus de Nazaré, em tudo o que se diz e se faz.

Se queremos brilhar como estrelas em meio a trevas, é essencial que, como congregação, nos estimulemos a desenvolver graciosamente a humildade, o esvaziamento de nós mesmos e a obediência à palavra de Deus encarnada e que, como instituição, nossas estruturas sejam lubrificadas pela vida de Jesus, a fim de que nossa presença seja percebida como fonte de esperança em uma sociedade corrompida, como se apresenta a do nosso querido país.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

As cidades e os relacionamentos

Vivi em Garça, Recife, Maceió, Coral Springs, Salvador e agora minha trilha é Campinas.

Não sinto falta dessas cidades pelos lugares nos quais nelas pude ir, mas pelas pessoas com as quais neles pude estar. 

Faz-me bem lembrar-me de cada uma delas e do que me proporcionaram em suas companhias. 

Importante são as memórias que delas carrego em mim.

Sou assim:

Sou assim:

Sou assim:
Quero ser melhor
Não melhor do que você
Muito menos melhor do que você deseja que eu seja
Quero ser melhor
Melhor porque assim minha vida pode melhorar
Melhor porque assim sua vida pode melhorar
Melhor porque assim nossas vidas podem melhorar

Sou assim:
Quero ter uma vida melhor
Não melhor tendo o máximo que o dinheiro possa comprar
Melhor tendo o necessário para celebrar
Celebrar a amizade
Celebrar a saúde
Celebrar a alegria
Celebrar a justiça
Celebrar a solidariedade
Celebrar a liberdade, o amor e a graça

Sou assim:
Quero ver sua vida melhor
Não melhor com base no que eu ache melhor
Melhor naquilo que você se sinta confortável
Melhor naquilo que você se sinta saudável
Melhor naquilo que você se sinta íntegro e confiavel

Sou assim:
Quero que você me ajude a ser uma pessoa melhor
Não querendo que eu seja sua imagem e semelhança
Não me tratando como se você fosse o "maduro" e eu a criança.
Mas fazendo-me sentir o pulsar do seu coração
Estendendo-me a mão sem com isso querer tirar minha liberdade de ação
Tratando-me como companheiro que apenas ajuda na direção

Queixas e discussões - Filipenses 2:14

“Façam tudo sem queixas nem discussões,” (Filipenses‬ ‭2:14)

Todos temos motivos para lamentar, todos temos arestas para aparar. As queixas decorrem de situações cujos resultados nos desagradam; as arestas, fruto da singularidade de cada individuo, das diferenças de interesses e valores, dos desníveis de condição, da necessidade de manifestação de poder, do egoísmo que nos torna inacapzes de reconhecer e sentir a dor alheia.

O problema da queixa é sua ineficácia, sua falta de objetividade. Quando muito ela dá alívio superficial, mas o queixoso não se atém à examinar causas, visualizar e buscar soluções. Apenas se satisfaz com a expressão do seu desgosto, num ato contínuo de autocomiseração e contaminação. Já nossas diferenças não se resolvem com disputas, mas com diálogos nos quais um procura ouvir e entender o ponto de vista do outro e ambos se dispõem a fazer concessões mútuas pelo bem comum.

Queixas e discussões não devem caracterizar o fazer cristão. Isso não significa que devem ser recalcadas. Antes, devem ser entendidas como possibilidade na caminhada, mas, uma vez expressas, devem ser solucionadas com boa vontade das partes, se necessário com ajuda de terceiros, mas, jamais, fazer parte da rotina de nossas vidas individuais ou comunitárias.

sábado, 15 de abril de 2017

Declaração de Imposto de Renda, corrupção e indignação

Robert Kiyosaki e Sharon L. Lechter, em "Pai rico, pai pobre", dizem algo como gostar de pagar impostos, pois isso indica que estão ganhando dinheiro.

Lembrei-me disso ao concluir minha declaração de imposto de renda, nessa sexta à noite.

Diferente deles, fico indignado. 

Antes era só por não ter saúde, educação ou segurança, por exemplo, de qualidade. Agora por conhecer um pouco mais detalhadamente a ponta do inceberg da absurdamente bem estruturada organização criminosa que suga o dinheiro do nosso trabalho, dos impostos que somos obrigados a pagar.

No final da declaração, calculei que entreguei 25% do que recebi em 2016 para um governo corrupto administrar em favor de seus interesses. Ou seja, trabalhei 3 meses, de 12, só para pagar impostos, para muito pouco de retorno. (Pegue o seu recibo de entrega da Declaração de Imposto de Renda, divida o valor pago em impostos pelo valor total que você recebeu, veja o percentual e sorria).

Isso sem falar de iptu, icms, ipi, ipva, pedágios, contribuições, etc, etc, etc...

Pior é quando me lembro das críticas que recebo, das portas que se fecham, porque, como pastor, defendo e estimulo o exercício político de nossa cidadania. A indignação só aumenta.

Ainda bem que meu coração está bem!

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Uma resposta sobre o cristão e a política

Recebi, via áudio a palavra que segue e, pela relevância, compartilho, com minha resposta na sequência.

"Pastor, bom dia,

É, falar de Cruz, pastor. Nós precisamos falar mais de Cristo do que de política.

Sabe pastor, quantas pessoas em nossas igrejas estão deixando de falar com o outro simplesmente por questões que um tem um partido e o outro tem outro. É, chamar, ofender o outro de ladrão porque tem um pensamento ideológico diferente daquilo.

Enquanto Cristo não for Senhor, Senhor mesmo em sua plenitude, esse país vai sofrer muito e cada vez mais piorando. É um preço que está se pagando por seguirmos mais a homens do que a Deus."


Prezado Irmão, ouvi sua palavra.

Concordo que devemos falar mais de Jesus. Vou além: não só falar mais de Jesus, mas muito mais, falar daquilo que Jesus foi, fez e falou.

Se imitarmos Jesus naquilo que ele foi, fez e falou, falaremos mais de política, sem amargura, rancor ou ódio. Falaremos mais de política com amor, justiça, honestidade, solidariedade, enfim, valores presentes na vida, na fala de Jesus, tão em falta em nossas vidas e falas de "cristãos".

A solução, a meu ver, não seria substituir o "falar de política" pelo "falar de Jesus", mas falar de política com o coração e a voz de Jesus.

Assim falaríamos das políticas que adotamos em relação aos nossos corpos, nossos discursos, nossos casamentos, nossas famílias, nossos amigos, nossos irmãos na fé, nossos  semelhantes duferentes, nossos estudos, nossos trabalhos, nosso dinheiro, nosso tempo, nossa igreja, nossa cidade, nosso estado, nosso país, nosso planeta, enfim, das políticas que adotamos sobre nossa vida, à luz da vida daquele que dizemos ser senhor de nossa vida: Jesus.

Negar o discurso sobre política é negar a própria vida, pois a vida é feita de relações políticas.

Ou não é política o que marido e esposa fazem quando se sentam em torno de uma mesa pra elaborar as prioridades do orçamento famíliar? Ou não é política o que pais fazem quando se sentam com seus filhos para definir procedimentos que envolvem suas vidas? Ou não é política o que a igreja faz quando se reune em assembléia para votar seus assuntos ou eleger seus dirigentes?

Fazemos política o tempo todo, inclusive quando optamos por não participar de determinadas políticas. É a conveniência política, a avaliação que fazemos do que ganhamos ou perdemos, que nos leva a escolher participar ou nos ausentar desta ou daquela política.

É a mesma conveniência, a mesma análise de custo-benefício, que nos leva a falar ou silenciar sobre determinado assunto, em determinada circunstância ou lugar.

Isso é política.

Cada um escolhe a política que adotará de acordo com a competência ou coragem que acredita ter para participar.

E quando para para decidir em quais assuntos e ambientes se envolverá, está decidindo que política adotará. Esta escolhendo aquilo que lhe interessa de acordo com os sentimentos e valores que norteiam sua vida.

Fazer escolhas, portanto, é fazer política. Podemos gostar ou não das escolhas políticas que o outro faz ou da forma de fazer política que o outro faz. Isso também é uma posição política.

Quando criticamos as escolhas ou formas de fazer política do outro ou, pior, negamos o direito que ele tem de fazer as escolhas e a forma que faz, estamos, com a nossa postura política desejando que a nossa escolha e formas de fazer política prevaleça, mesmo não assumindo isso publicamente.

Desde o dia que escolhemos, conscientemente, seguir a Jesus, isso teve uma implicação política. Manter essa escolha com as consequências disso em todas as dimensões da vida é um desafio que temos que enfrentar diariamente.

Se não fosse sua graça e o poder do seu espírito, as coisas poderiam estar sendo bem pior. Mas precisamos continuar, não adotando a política de substituir  o "falar político" pelo "falar de Jesus", mas fazer e falar de política com o coração de Jesus.

Forte abraço,

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Deus, o motivo do nosso compromisso - Filipenses 2:13

“pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.” (Filipenses‬ ‭2:13‬)

O que nos motiva a continuar integrados numa comunidade de fé, no corpo de Cristo, em meio a deslealdade no trato, incoerência de conduta, especialmente de parte dos que ocupam cargos eclesiásticos? O que nos motiva a continuar firmes na fé evangélica, isto é, na fé fundamentada no evangelho de Jesus Cristo, em meio a tantos escândalos envolvendo pessoas públicas que se identificam como evangélicas? 

É comum atitudes de esfriamento com as coisas do Reino de Deus, de afastamento das ações comunitárias que visam manifestar a presença de Deus em nossas vidas e na da igreja da qual participamos, em nome dos deslizes cometidos por  membros ou líderes da igreja.

O que não podemos nos esquecer, porém, é que Deus é a razão da nossa fé e não as pessoas que nos cercam. Não devemos nos acomodar ao pecado, minimizando sua importância, muito menos dar a ele importância tal que seja capaz de sufocar a ação divina em nós. É ele, o Senhor, quem efetua em nós o querer e o realizar sua obra, não as pessoas e seus desvios.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A força da salvação - Filipenses 2:12

“Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas na minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor,” (Filipenses‬ ‭2:12‬)

Fomos salvos, estamos sendo salvos e seremos salvos. Salvação, portanto, não é algo que tem a ver apenas com o futuro, com uma recompensa em outro espaço geográfico. Esse não foi o foco dos ensinos de Jesus. Salvação é a experiência libertadora que a reconciliação com Deus, em Cristo Jesus, possibilita a partir do já e do aqui.

Salvação é algo a ser desenvolvido. Quem a experimenta, tem pressa em ver seus efeitos acontecendo em sua própria vida e na das comunidades passíveis de sua influência. Sabe que seus efeitos são universalmente benéficos e, por isso, não enxerga barreiras geográfico-culturais que impossibilitem seu avanço.

Salvação é algo tão forte no coração dos que estão em comunhão com Deus que seu desenvolvimento não depende da presença fiscalizadora de alguém para se concretizar. É algo que brota do interior, da consciência, contagiando até sem palavras, aqueles que convivem com quem por ela foi alcançado.

terça-feira, 11 de abril de 2017

3 diferentes leituras da narrativa da páscoa

São múltiplas as possibilidades de leitura e aplicação da narrativa da páscoa cristã, principal acontecimento dessa tradição de fé. Da teologia à política passando pela psicologia, por exemplo, ela é pedagogicamente rica e seus significados fortalecem nossa caminhada neste planeta.

Na leitura teológica, predomina Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. A linguagem é uma analogia aos rituais de animais praticados em diversas religiões, inclusive na judaica, cujo derramamento de sangue era feito em favor da purificação de pecados. A crucificação de Jesus e o sangue derramado no madeiro põe fim à necessidade de rituais religiosos em favor da comunhão humana com o divino.

A ênfase nessa leitura é ao Cristo de Deus e sua aplicação se dirige predominantemente aos benefícios individuais da fé no sacrifício de Jesus. Tal fé produz alívio à alma das culpas produzidas pelos pecados individuais e possibilita ao que crê aguardar confiante pela salvação eterna no céu.

leitura política enfatiza o Jesus histórico, sua relação com os poderes estabelecidos e as consequências das posições que assumiu frente aos sistemas políticos que sustentavam o religioso estado vigente à época.

A postura crítica de Jesus ao principal partido religioso de então – os fariseus – e o confronto dos valores que a denominação religiosa abraçava, dos costumes que defendia, com os valores do Reino de Deus, resultaram na crucificação do homem de Nazaré. O argumento da força teria vencido a força do argumento.

Essa compreensão é pouco ou quase nunca destacada, não porque seja difícil de ser entendida ou porque não tenha realmente algo a ver com a realidade dos acontecimentos, mas porque relacionar a vida de Jesus, suas atitudes, palavras e ações, com o desfecho na cruz do Calvário, em seu aspecto político, tem a capacidade de gerar tensão profunda e constante entre igreja e sociedade.

É muito mais confortável, seja para igreja, seja para os seus dirigentes, desvincular os efeitos da vida de Jesus da realidade que os cerca e vincular seu ministério exclusivamente a um porvir glorioso, do que experimentar cotidianamente o dissabor de confrontar os valores que norteiam o funcionamento dos sistemas – políticos, econômicos, educacionais, religiosos, de saúde, segurança, transportes, etc - que sustentam a vida presente da coletividade e os benefícios que eles – os valores vigentes - trazem aos que conduzem tais sistemas.

leitura psicológica enfatiza a vitória da vida sobre a morte, alimenta a esperança humana diante dos desafios de todas as naturezas que se apresentam à caminhada neste mundo, revigorando nossas forças e alimentando nossa criatividade em busca perseverante de soluções que nos ajudem a não desistir de viver.

O cotidiano da vida neste lugar impõe desafios de toda ordem. Viver o aqui e agora implica enfrentar todo tipo de adversidade. Muita vez o sofrimento é tal que a esperança se esvai, o sentido desaparece. Nesse contexto, a narrativa do sofrimento, morte e ressurreição de Jesus reacende a chama que anima a alma e o desejo de continuar vivendo, movido pela fé de que, por mais difíceis que sejam as lutas, a vitória está reservada.

Há aqueles que se relacionam com o texto de maneira positivista e acreditam que somente uma verdade pode ser relacionada aos acontecimentos narrados. Há outros cuja relacão com o texto é de natureza estritamente pedagógica, para os quais o importante seriam as lições que podem ser tiradas e ensinadas em favor da vida. Alguém poderia perguntar: qual seria a leitura correta da narrativa da páscoa?



Pessoalmente entendo que todas as leituras são benéficas e se complementam, pois as Escrituras nas quais a história de Jesus – portanto a narrativa da páscoa - está inserida demonstram de maneira clara que o amor de Deus é por sua criação em todas as dimensões e todos que buscam viver em comunhão com o criador, personificado em Jesus, hão de entender que a vida de Jesus, do nascimento à ressurreição, são uma estrondosa manifestação de vida, de esperança, sem exclusão de qualquer de suas dimensões.

Testemunho eficaz - Filipenses 2:11

“e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.” (Filipenses‬ ‭2:11‬)

Todo aquele que reconhece Jesus como Senhor e Salvador deseja que outras pessoas também tenham oportunidade de assim conhecê-lo. Não se trata de querer impor uma religião e suas estruturas doutrinárias, organizacionais, políticas e ideológicas, mas de compartilhar os benefícios individuais e coletivos da experiência com Jesus e obediência aos seus ensinos.

Entretanto, tal desejo não tem sido suficiente para alterar a realidade como poderia. Isso se deve ao fato de dizermos "senhor, senhor", mas não nos empenharmos em viver o que ele ensina, em boa parte do tempo e em parcela significativa de nossas atitudes, palavras e ações.

Se desejamos ver pessoas com joelhos dobrados, confessando Jesus como senhor e glorificando a Deus em suas vidas, é essencial que as atitudes que adotamos sejam as mesmas de Jesus e não as dos que anunciam o evangelho movidos por invejas e rivalidades, como Paulo escreveu aos Filipenses.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Xô, amargura III (Quando o racionalismo teológico é de fachada)

Hoje à tarde estava pensando nos quatro caminhos que Peter Scazzero recomenda em "O líder emocionalmente saudável", para enfrentarmos nossas sombras e dediquei um pouco mais de atenção a um deles que é "dominar seus sentimentos dando-lhes nomes".

Pensei mais nesse porque acompanho a reação racional, filosófica até, exposta através de linguagem inteligente e lúcida, da parte de algumas pessoas contra, por exemplo, os batistas, os evangélicos, uma igreja específica ou até contra a fé cristã, mas, por conhecer um pouco a história dessas pessoas, sei que as palavras são apenas um verniz para esconder a razão real das duras - mesmo inteligentes - críticas, que é um profundo sentimento de amargura não resolvido.

(Críticas fazem bem, são necessárias, quando elaboradas e expostas não por amargura, mas pelo interesse no bem da parte criticada)

Quem nunca experimentou algum grau de amargura, que atire a primeira pedra. Todos vivemos situações em nossos relacionamentos familiares, eclesiásticos, profissionais, enfim, nos quais nos sentimos injustiçados. O sentimento de injustiça é, talvez, o maior causador de amargura.

O problema é que, se tais pessoas não têm oportunidade de refletir sobre seus próprios sentimentos, de reconhecê-los dando os devidos nomes, elas não conseguem administrá-los e superá-los. Isso, além de provocar problemas de diversas naturezas pra elas próprias, prejudica também a vida de tantas outras pessoas que, muita vez, nada têm a ver diretamente com o problema.

Confesso que gostaria de conversar com algumas dessas pessoas. Inclusive para compartilhar dos momentos de amargura pelos quais já passei e como fez bem a mim conseguir compreendê-los, reelaborá-los e não mais permitir que eles exercessem controle sobre mim. Também para ajudá-las a chamar seus sentimentos pelo nome, libertando-se de seus efeitos nocivos.

Estamos expostos a experimentar amargura, inclusive porque nos relacionamos e todo relacionamento é conflituoso. Saber que, admitindo a amargura, reconhecendo a razão de sua presença em nós e dando a ela o devido nome, podemos administrá-la melhor e atè superá-la, é muito importante.

E aí, alguma amargura?

Xô amargura I
http://blogdoedvar.blogspot.com.br/2009/08/xo-amargura-i-2004.html

Xô amargura II
http://blogdoedvar.blogspot.com.br/2009/08/xo-amargura-ii-2004.html

Joelhos dobrados - Filipenses 2:10

“para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,” (Filipenses‬ ‭2:10‬)

Em busca de satisfazer necessidades emocionais e materiais imediatas, somos capazes de fazer aquilo que é nocivo a nós mesmos e aos outros, no curto, médio e longo prazo. Falta-nos sabedoria e paciência para reconhecer e agir de modo que prevaleça aquilo que é valorizado por Deus e não "pelos mercados".

Agir de acordo com valores do Reino de Deus pode colocar-nos em uma aparente desvantagem. Não raras vezes nós mesmos somos comparados ou nos comparamos com pessoas, cujas atitudes não refletem o caráter de Jesus, mas aparentam prestígio, dinheiro, poder ou sucesso.

Porém, a vida de Jesus - na mensagem de Paulo - nos estimula a vivermos com humildade e obediência diante de Deus, pois o caminho para que a vida seja exaltada em vez de aviltada é viver com os joelhos dobrado diante de Jesus e não das tentações da vida.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Exaltação da humanidade - Filipenses 2:9

“Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome,” (Filipenses‬ ‭2:9‬)

Há atitudes que exaltam o ser humano. Não a exaltação que, ao distinguir alguém em grau superior, avilta os semelhantes ou os deixa em situação de oprimidos, mas a exaltação que coloca o exaltado em condições de proximidade tal do caráter divino que ratifica sua amorosidade semelhante à do criador.

A inveja e ambição egoistas são atitudes que aviltam a humanidade, que colocam o ser humano e a vida em comunidade em situação de conflito e risco de destruição. Elas obscurecem a imagem divina na humanidade. São, portanto, incompatíveis com o caráter de quem se declara discípulo de Jesus.

As atitudes adotadas por Jesus, responsáveis por sua exaltação, revela o caminho a ser percorrido por aqueles que querem ver a humanidade exaltada e não aviltada: humildade e obediência diante de Deus. Daí, por exemplo, a recomendação de Pedro: "Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido.” (1 Pedro‬ ‭5:6‬)